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Liga Solidária: Daiana enfrenta a Covid vendendo doces, mesmo tendo perdido o paladar

Liga Solidária: Daiana enfrenta a Covid vendendo doces, mesmo tendo perdido o paladar

Redação
Por: Redação
07/03/2021 às 16h51
Liga Solidária: Daiana enfrenta a Covid vendendo doces, mesmo tendo perdido o paladar

Para ser entrevistada, por telefone, Daiana Lopes precisou sair de sua casa, no Jardim Paulo VI, região do Butantã, em São Paulo, porque o sinal de seu celular falha com frequência e as ligações feitas dentro da casa muitas vezes acabam sendo interrompidas. Apesar disso, é com o mesmo celular que Daiana envia, para algumas pessoas, fotos dos doces que aprendeu a fazer e que garantem uma renda para a família, desde que a pandemia começou.

Com as medidas de segurança, o movimento na lanchonete em que trabalhava como atendente diminuiu e, com isso, o salário de R$ 1.300 caiu: foi para R$ 700 e permaneceu assim até dezembro, quando o estabelecimento fechou e Daiana foi demitida. Antes da demissão, a situação na casa de Daiana já estava complicada, pois seu marido, José, autônomo que trabalha com colocação de pisos, também se viu sem trabalho por meses, e a filha mais velha, Talita, de 19 anos, foi demitida da loja em que trabalhava num shopping.

“Foi um desespero, principalmente por conta do aluguel”, conta Daiana. José correu atrás e passou a receber o auxílio emergencial, oferecido pelo governo, e Daiana logo começou a fazer uma oficina de culinária, com o objetivo de fazer doces, sua especialidade, e vender para moradores do bairro e familiares. A oficina foi oferecida pela Liga Solidária, organização social que atende famílias de alta vulnerabilidade na capital paulista, mas Daiana não precisou sair de casa porque, com a pandemia, a oficina foi realizada online.

Daiana aprendeu receitas práticas e rápidas e começou a fazer e vender doces como mousses de maracujá e chocolate, vendidos a R$ 2, e pudim no copo, vendido a R$ 1. “As vendas me rendem em torno de R$ 50 por semana e R$ 200 no fim do mês”, calcula. “Mando mensagens pelo whatsapp, oferecendo os doces. Quem pode vem buscar, e para quem não pode vir, eu mesma entrego porque todo mundo mora aqui próximo”, conta.

A atividade culinária de Daiana continua até hoje, pois a filha ainda está desempregada e marido, já sem o auxílio emergencial, até começou a ser chamado para alguns trabalhos, mas sem nenhuma garantia de regularidade, em função do agravamento da pandemia. O aluguel está em dia e a família – que ainda conta com o filho caçula, Artur, de 12 anos – também recebe da Liga Solidária uma cesta básica mensal, com alimentos e produtos de higiene.

Atualmente, Daiana não tem fotos dos doces que já fez, pois precisou apagá-las: precisou poupar a memória do celular para que Artur possa estudar. É no seu aparelho que ele recebe as apostilas da escola pública onde faz o 7º ano, já que parte do conteúdo também é remoto. “Meu marido também tem celular, mas ele não pode ficar sem porque, a qualquer momento, pode aparecer algum trabalho”, justifica.

Covid e falta de paladar

Em meio a todas essas dificuldades, em outubro do ano passado Daiana contraiu Covid. Felizmente, a família não foi contaminada e os sintomas de Daiana foram leves. Porém, além de dores de cabeça e algum cansaço, ela perdeu olfato e paladar – sentidos até hoje não totalmente restabelecidos. E como faz uma cozinheira sem paladar? Nessa hora entram a experiência e a ajuda da família: “Com a prática, eu já sei a medida certa das receitas, então, é difícil errar. Mas depois que os doces ficam prontos, meus filhos e meu marido provam”, revela Daiana.

Apesar da ajuda da família, Daiana não nega a sensação ruim de não sentir sabores: “É bem estranho. Você se sente uma pessoa do outro mundo. Você come, mas fica frustrado por não sentir o gosto da comida”, diz ela, cujos pratos prediletos são feijoada e lasanha à bolonhesa. Mesmo não saboreando plenamente, Daiana faz, em alguns sábados, a feijoada que tanto gosta. E, mais uma vez, a família prova e avalia.

Para 2021, Daiana espera recuperar plenamente seu paladar e olfato e que chegue seu dia de vacinar-se, embora saiba que, aos 35 anos, seu lugar na fila ainda está distante. “A vacinação está muito lenta, a imunização já está bem organizada em outros países e aqui faltou organização”, critica.

Daiana e a família seguem com os procedimentos de segurança e de higiene, como o uso de máscaras e álcool em gel, embora ela reconheça que o risco sempre existe. “Às vezes, preciso sair pra entregar os doces e meu marido precisa sair pra trabalhar. E outra: como fazer isolamento, numa casa de três cômodos com quatro pessoas?”. Enquanto a vacina não chega, Daiana informa-se ao máximo sobre a pandemia, pelos telejornais. "Assisto todo dia, não perco”, garante.

Assim como a filha, Daiana concluiu apenas o ensino médio. Mas o sonho universitário ainda existe. “Quero fazer Psicologia ou Nutrição. Talvez escolha Psicologia, porque quero trabalhar com crianças”, planeja. Mas, por enquanto, Daiana preocupa-se com a renda familiar e, por isso, a partir do dia 8 de março, começa um novo trabalho, como diarista, na casa de uma família. E planeja começar, em breve, uma segunda oficina de culinária na Liga Solidária, também online, para aprender novas receitas.

Vulnerabilidade

Segundo Christiane Basílio, coordenadora do Programa Famílias da Liga Solidária, a pandemia trouxe um retrocesso para as famílias em vulnerabilidade social que, hoje, precisam ter garantido seu direito à alimentação. “Muitas pessoas que tinham trabalhos formais perderam suas rendas ou até tiveram que entregar suas casas de aluguel”, afirma Christiane. Outro fator importante se refere ao teletrabalho, realidade distante da maior parte da sociedade brasileira: “Grande parte das famílias atendidas pela Liga não tem acesso à internet via wifi ou dados móveis nem possui computadores. Quando muito, tem um celular com internet para as crianças e adolescentes conseguirem ter acesso às aulas”.

O Programa Famílias é um dos principais eixos da Liga Solidária e atendeu, no ano passado, 993 famílias na periferia de São Paulo, com distribuição de 4.325 cestas de alimentos e higiene e Cartões Alimentação. Para 2021, já estão cadastradas 1.029 famílias.

Segundo Christiane, com o inicio da pandemia foram ofertadas seis oficinas online, entre essas, a de culinária. As mulheres respondem pela totalidade das matrículas.

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