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Por que a Venezuela sumiu dos noticiários?

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Por que a Venezuela sumiu dos noticiários?

 

Durante quase todo o ano de 2017, a Venezuela ocupou boa parte da grade do jornalismo no Brasil e no mundo. Desde a eleição para a Assembleia Constituinte, porém, a mídia pouco tem abordado o que se passa no país. Vários fatos envolvendo tanto o cenário político venezuelano quanto o contexto mundial explicam isso.

O principal motivo, talvez, para a mudança no comportamento jornalístico é o fato de que os protestos da oposição de direita na Venezuela esfriaram e praticamente não ocorrem mais.

Logo depois do pleito que escolheu os novos Constituintes do país, houve uma tentativa frustrada de convocar um protesto por parte da principal força de oposição, a MUD. A adesão foi muito pequena e acabou inaugurando um período de calmaria nas ruas venezuelanas.

Vários fatores levaram à baixa adesão popular aos novos protestos da direita. Embora contestada pela mídia internacional, a eleição para a Assembleia Constituinte, de fato, teve uma grande participação popular, uma das maiores já conquistadas pelo chavismo, o que mostrou que boa parte do povo venezuelano realmente aposta na Constituinte como um caminho para a pacificação do país.

Do outro lado, boa parte do povo que não apoia o bolivarianismo passou a se sentir traída pela MUD e por outros organismos políticos da direita venezuelana.

Primeiro porque os chamados a protestos feitos por lideranças que se manifestavam no conforto de Miami já eram vistos como pura hipocrisia pelos revoltosos. Segundo porque a MUD, que dias antes contestava a legitimidade de qualquer processo eleitoral feito pelo Estado, logo se apressou a dizer que concorreria nas eleições regionais convocadas pela Constituinte.

Assim, se ao lado da oposição houve uma grande desilusão popular em relação a classe política que a representava, do lado bolivariano, o apoio massivo à Constituinte rendeu novas forças ao governo de Maduro.

Com as ruas mais calmas e com a Constituinte baseada em apoio popular, a oposição passou a voltar seus olhos para a comunidade internacional. Nesse momento, sumiram as notícias sobre fatos internos do país, que passaram a ceder espaço à pressão internacional sobre a Venezuela.

A narrativa parecia que ganharia força, inclusive, quando a ex-Procuradora Geral do país, Luisa Ortega, foi destituída e se refugiou na Colômbia. Mas suas ameaças de revelar os podres do Governo parecem ainda não ter prosperado e, inclusive, geraram desconfianças sobre ela, que ocupou o cargo por anos sem se manifestar nesse sentido.

E nem mesmo a narrativa de rechaço mundial ao regime chavista rendeu muitos frutos. Pelo contrário, acabou expondo a incoerência dos grandes grupos de mídia, que, no conturbado cenário político atual, mostram dois pesos e duas medidas para fatos semelhantes.

Como a mídia mundial poderia, por exemplo, manter a narrativa de que a falta de rotatividade no poder venezuelano é uma ditadura, ao mesmo tempo em que apoia que Angela Merkel permaneça no poder da Alemanha (e da Europa) por um período maior do que o próprio Chávez? E nem se diga que não há repressão no governo alemão, ou todos já esqueceram as horríveis cenas de violência policial durante a reunião do G-20 em Hamburgo? Ou a pressão escandalosamente imperialista e antiética que exerceu sobre países em crise como Grécia, Portugal e Espanha?

A narrativa de pressão da comunidade internacional também acabou esbarrando nos atos dos próprios governos que a exerciam. Enrique PeñaNieto, presidente mexicano, acusava Maduro de ditador sob a tutela de seu partido, o PRI, que governou o México por mais de 70 anos, e sem ainda ter explicado o massacre de 43 estudantes em Ayotzinapa. Juan Manuel Santos, presidente colombiano, por sua vez, passou todo o ano de 2017 condenando o regime chavista, sendo que, nesse mesmo período (entre janeiro e agosto), 101 líderes de movimentos sociais haviam sido assassinados em seu país.

A mesma incoerência atingiu o governo espanhol, recentemente, quando, após reconhecer o governo venezuelano como uma ditadura, chocou o mundo ao reprimir com uma violência completamente desproporcional o movimento separatista catalão.

Repressão que boa parte da mídia espanhola, como o El País, se apressou em encontrar justificativas. Aliás, este diário espanhol, meses antes, confiou cegamente no plebiscito realizado pela oposição na Venezuela, ainda que a MUD tenha queimado todas as cédulas e atas para que nenhum órgão pudesse auditá-las. Mas não mostrou a mesma confiança a respeito do plebiscito catalão, que tem seus resultados contestados em suas páginas diariamente.

Mas a narrativa de pressão internacional já tinha perdido sua força antes disso, quando Trump afirmou que os EUA consideravam uma opção de intervenção militar na Venezuela. Nem mesmo os governos subordinados aos interesses americanos, como o de Colômbia, México, Brasil e Argentina, apoiaram a declaração.

Declaração esta que acabou sendo um tiro no pé para a própria oposição venezuelana, que passou a ser acusada por parte da população de estar participando de uma conspiração internacional contra o povo venezuelano.

Mas, talvez, em nenhum outro país essas incongruências saltaram tanto aos olhos quanto no Brasil. Soava falso demais para a imprensa brasileira continuar uma campanha anti-chavismo ao mesmo tempo em que empregava todos os seus esforços em apoiar as medidas impopulares de um governo golpista, como a reforma trabalhista e da Previdência.

Soava falso, também, que militantes da direita condenassem a violência na Venezuela ao mesmo tempo em que comemoravam o massacre de manifestantes na Esplanada em Brasília. Assim, aqui, como no resto do mundo, a imprensa achou por bem baixar o tom nas notícias a respeito da Venezuela.

Enquanto isso, o povo venezuelano mostra sua força ao tentar reerguer o país após a grande divisão política que sofreu. Como já defendi neste mesmo espaço em uma ocasião anterior, o bolivarianismo, que apresenta dados incontestáveis entre 1999 e 2014, segue sendo o caminho escolhido pelo povo Venezuelano em busca de seu desenvolvimento.

Com a pacificação do país e uma possível alta do petróleo, abre-se a porta para que a Constituinte corrija as falhas do chavismo, como ela já propôs ao apresentar um plano de diversificação da economia e de apoio aos produtores rurais. E é desse modo que segue o povo venezuelano, exercendo sua auto-determinação e soberania, em um pedaço da América Latina que ao menos ousa se dizer livre.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

 

Fonte: http://justificando.cartacapital.com.br

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O mundo está cansado de mentirosos, de padres da moda, de arautos de cruzadas

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O mundo está cansado de mentirosos, de padres da moda, de arautos de cruzadas

 

Aos novos bispos do curso anual de formação, o papa afirma que fazer pastoral da misericórdia não é fazer liquidação de pérolas. “Não poupem esforços para ir ao encontro do povo de Deus, estejam perto das famílias com fragilidade. Nos seminários, apontem para a qualidade, não para a quantidade. Desconfiem dos seminaristas que se refugiam na rigidez.”

“O mundo está cansado de encantadores mentirosos… e, eu me permito dizer, de padres ou bispos na moda. As pessoas ‘farejam’ e se afastam quando reconhecem os narcisistas, os manipuladores, os defensores das causas próprias, os arautos de cruzadas vãs.”

O Papa Francisco dirigiu um longo discurso aos bispos recém-nomeados, em Roma, para um curso de formação, tocando diversas questões do seu ministério, a partir da necessidade de tornar pastoral – “isto é, acessível, tangível, encontrável” – a misericórdia, que é o “resumo daquilo que Deus oferece ao mundo”.

Os bispos, disse Jorge Mario Bergoglio, devem ser capazes de encantar e de atrair os homens e as mulheres do nosso tempo a Deus, sem “lamentações”, sem “deixar nada de não tentado a fim de alcançá-los” ou “recuperá-los”, e graças aos percursos de iniciação (“Hoje, pedem-se frutos demais de árvores que não foram cultivadas o suficiente”).

Além disso, é necessário vigiar a formação dos futuros sacerdotes, apontando para a “qualidade do discipulado”, e não para a “quantidade” de seminaristas, e usando “cautela e responsabilidade” ao acolher sacerdotes na diocese. Francisco também convidou os novos bispos a estarem perto do seu clero, àqueles que Deus coloca “por acaso” no seu caminho e às famílias com as suas “fragilidades”.

“Perguntem a Deus, que é rico em misericórdia – disse o papa aos 154 novos bispos (16 dos territórios de missão) que participaram do curso anual de formação promovido conjuntamente pela Congregação para os Bispos e pela Congregação para as Igrejas Orientais – o segredo para tornar pastoral a Sua misericórdia nas suas dioceses. De fato, é preciso que a misericórdia forme e informe as estruturas pastorais das nossas Igrejas. Não se trata de rebaixar as exigências ou vender barato as nossas pérolas. Ou, melhor, a única condição que a pérola preciosa dá àqueles que a encontram é a de não poder reivindicar menos do que tudo. Não tenham medo de propor a Misericórdia como resumo daquilo que Deus oferece ao mundo, porque o coração do homem não pode aspirar a nada maior”, disse Francisco, que, sobre a misericórdia como “limite para o mal”, citou Bento XVI, acrescentando duas perguntas retóricas: “Por acaso, as nossas inseguranças e desconfianças são capazes de suscitar doçura e consolação na solidão e no abandono?”.

Para tornar a misericórdia “acessível, tangível, encontrável”, acima de tudo, o papa recordou que “um Deus distante e indiferente pode ser ignorado, mas não resistimos facilmente a um Deus tão próximo e, além disso, ferido por amor. A bondade, a beleza, a verdade, o amor, o bem – eis o que podemos oferecer a este mundo mendicante, ainda que em vasos meio quebrados. No entanto, não se trata de atrair a si mesmos. O mundo – disse Francisco – está cansado de encantadores mentirosos… e, eu me permito dizer, de padres ou bispos na moda. As pessoas ‘farejam’ e se afastam quando reconhecem os narcisistas, os manipuladores, os defensores de causas próprias, os arautos de cruzadas vãs. Em vez disso, tentem ajudar a Deus, que já Se introduz antes ainda da chegada de vocês”.

Nesse sentido, “Deus não se rende nunca! Somos nós, que, acostumados ao rendimento, muitas vezes nos acomodamos, preferindo nos deixar convencer que realmente puderam eliminá-Lo e inventamos discursos amargos para justificar a preguiça que nos bloqueia no som imóvel das lamentações vãs: as lamentações de um bispo são coisas feias”.

Em segundo lugar, é necessário, segundo o papa, “iniciar” aqueles que são confiados aos pastores: “Eu lhes peço para não terem outra perspectiva para olhar os seus fiéis do que a da sua unicidade, de não deixarem nada de não tentado a fim de alcançá-los, de não poupar qualquer esforço para recuperá-los. Sejam bispos capazes de iniciar as suas Igrejas nesse abismo de amor. Hoje – disse Francisco – pedem-se frutos demais de árvores que não foram cultivadas o suficiente. Perdeu-se o sentido da iniciação, e, no entanto, nas coisas realmente essenciais da vida, tem-se acesso apenas mediante a iniciação. Pensem na emergência educativa, na transmissão tanto dos conteúdos quanto dos valores, no analfabetismo afetivo, nos percursos vocacionais, no discernimento nas famílias, na busca da paz: tudo isso requer iniciação e percursos guiados, com perseverança, paciência e constância, que são os sinais que distinguem o bom pastor do mercenário”.

Francisco se debruçou com atenção particular sobre o tema da formação dos futuros padres: “Peço-lhes que cuidem com especial solicitude as estruturas de iniciação das suas Igrejas, em particular os seminários. Não os deixem ser tentados pelos números e pela quantidade das vocações, mas busquem a qualidade do discipulado. Não privem os seminaristas da sua firme e terna paternidade. Façam-nos crescer a ponto de adquirir a liberdade de estar em Deus ‘tranquilos’ e serenos como crianças desmamadas nos braços da sua mãe”; não como presas dos próprios caprichos e escravos das próprias fragilidades, mas livres para abraçar aquilo que Deus lhes pede, mesmo quando isso não parece tão doce quanto o seio materno era no início. E fiquem atentos quando alguns seminaristas se refugiam na rigidez; por baixo, sempre há algo de feio”.

E ainda: “Eu lhes peço também para agirem com grande prudência e responsabilidade ao acolher candidatos ou incardinar sacerdotes nas suas Igrejas locais. Por favor, prudência e responsabilidade nisso. Lembrem-se de que, desde o início, quis-se como inseparável a relação entre uma Igreja local e os seus sacerdotes, e nunca se aceitou um clero vagante ou em trânsito de um lugar para outro. E essa é uma doença dos nossos tempos”.

Por fim, o papa pediu que os bispos sejam “capazes de acompanhar”, citando, a esse respeito, a parábola do bom samaritano: “Sejam bispos com o coração ferido por tal misericórdia e, portanto, incansável na humilde tarefa de acompanhar o homem que, ‘por acaso’, Deus colocou no seu caminho”.

E, ainda, recomendou o papa aos novos bispos, “acompanhem por primeiro, e com paciente solicitude, o seu clero” e “reservem um acompanhamento especial para todas as famílias, regozijando-se com o seu amor generoso e encorajando o imenso bem que elas dispensam neste mundo. Acompanhem sobretudo as mais feridas. Não ‘passem ao largo’ diante da sua fragilidade”.

“Fico alegre por acolhê-los e por poder compartilhar com vocês alguns pensamentos que vêm ao coração do sucessor de Pedro, quando vejo diante de mim aqueles que foram ‘pescados’ pelo coração de Deus para guiar o Seu povo santo”, tinha iniciado o papa.

“Deus os livre de tornar vão tal frêmito, de domesticá-lo e esvaziá-lo da sua potência ‘desestabilizadora’. Deixem-se desestabilizar, é bom para um bispo”, disse Francisco.

“Muitos, hoje, se mascaram e se escondem. Eles gostam de construir personagens e inventar perfis. Tornam-se escravos dos parcos recursos que recolhem e aos quais se agarram como se bastassem para comprar o amor que não tem preço. Não suportam o frêmito de se saberem conhecidos por Alguém que é maior e não despreza o nosso pouco, é mais Santo e não culpa a nossa fraqueza, é realmente bom e não se escandaliza com as nossas chagas. Não seja assim para vocês”, concluiu: “Deixem que tal frêmito percorra vocês. Não removam-nos nem o silenciem”.

 

Fonte: Aleteria.org

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