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Sedimentos marinhos explicam como parte do Nordeste se tornou semiárida

Sedimentos marinhos explicam como parte do Nordeste se tornou semiárida

11/05/2021 às 20h33
Por: Redação
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Fenômeno relaciona-se com encolhimento do cinturão tropical de precipitação que teria ocorrido paulatinamente ao longo dos últimos 5 mil anos. Resultados do estudo conduzido na USP ajudam a prever o futuro climático da região (coleta de amostras de sedime
Fenômeno relaciona-se com encolhimento do cinturão tropical de precipitação que teria ocorrido paulatinamente ao longo dos últimos 5 mil anos. Resultados do estudo conduzido na USP ajudam a prever o futuro climático da região (coleta de amostras de sedime

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – As chuvas associadas à chamada Zona de Convergência Intertropical impactam a segurança alimentar e hídrica de aproximadamente 1 bilhão de pessoas ao redor do planeta. Aproximadamente 11% da população do Brasil, concentrada no Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, faz parte desse grupo. Esses Estados possuem clima semiárido em grandes extensões e aproximadamente metade de toda a precipitação anual ocorre em apenas dois meses do ano: março e abril. Tais chuvas fazem parte do cinturão tropical de precipitação quando este atinge sua posição mais ao sul, sobre o norte do Nordeste brasileiro. Durante o restante do ano, o cinturão desloca-se mais ao norte, sendo responsável pelo pico de precipitação na região costeira da Venezuela, entre julho e agosto.

Projetar o comportamento futuro das chuvas em regiões semiáridas como a citada é fundamental para que a sociedade possa se antecipar a possíveis modificações nos padrões de precipitação, em função da mudança climática em curso. Um estudo realizado pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) Cristiano Chiessi e colaboradores mostrou que a precipitação sobre o norte do Nordeste do Brasil diminuiu sistematicamente durante os últimos 5 mil anos, contradizendo um importante paradigma da paleoclimatologia. Esta revisão do que ocorreu no passado ajuda a compor um cenário mais realista sobre o que poderá ocorrer no futuro.

Artigo a respeito está disponível no periódico Paleoceanography and Paleoclimatology. O trabalho contou com apoio da FAPESP.

“Segundo o paradigma vigente, o cinturão tropical de precipitação teria se deslocado para o sul no decorrer dos últimos 5 mil anos. Nossa pesquisa sugere que, em vez disso, o que aconteceu foi que o cinturão sofreu uma contração no seu intervalo latitudinal de oscilação. Isto é, passou a oscilar dentro de uma faixa mais estreita”, diz Chiessi à Agência FAPESP.

Informações valiosas a respeito das respostas do sistema climático a diferentes condições estão registradas em sedimentos geológicos depositados no fundo dos oceanos. No estudo em pauta, foram utilizados três indicadores independentes de precipitação, por meio de sedimentos coletados ao largo da desembocadura do rio Parnaíba, na divisa dos Estados do Piauí e do Maranhão.

“Analisamos a razão entre as concentrações dos elementos químicos titânio e cálcio – o titânio oriundo da erosão das rochas continentais e o cálcio proveniente das conchas dos organismos marinhos. Além disso, levantamos a taxa de acumulação de sedimentos continentais no fundo do oceano e a composição dos isótopos de hidrogênio nas ceras de plantas continentais encontradas nos sedimentos marinhos. Esses três conjuntos de dados, juntamente com a análise de resultados de um modelo climático numérico, apontam para a contração do cinturão tropical de precipitação durante os últimos 5 mil anos, em vez do sugerido deslocamento para o sul”, informa Chiessi.

O estudo mostrou ainda que a distribuição das temperaturas das superfícies dos dois hemisférios é fundamental no controle da posição do cinturão tropical de precipitação, diferentemente do proposto no paradigma vigente.

“De acordo com esse paradigma, a migração do cinturão para o sul seria decorrente do aumento gradual da radiação recebida do Sol pelo hemisfério Sul durante o verão. Como no hemisfério Norte a situação inversa ocorreu, tal cenário teria imposto dificuldades crescentes ao avanço do cinturão para o norte. No entanto, duas fragilidades desse modelo chamaram nossa atenção. Em primeiro lugar, o fato de que a posição do cinturão deveria ser determinada pela distribuição das temperaturas das superfícies nos dois hemisférios, que não necessariamente respondem de forma linear à distribuição da radiação recebida do Sol. Em segundo lugar, as evidências que davam suporte ao paradigma estavam localizadas quase que exclusivamente no hemisfério Norte, faltando a contraprova austral do suposto deslocamento”, explica Chiessi.

Segundo o pesquisador, apesar de a radiação recebida do Sol ter sofrido as mudanças descritas, as respostas dos dois hemisférios ao fenômeno foram distintas. Isto devido à diferença na área coberta por continentes e oceanos nos dois hemisférios, uma vez que os continentes respondem mais rapidamente do que os oceanos a mudanças na radiação solar. “Torna-se, portanto, necessário revisar o paradigma que influenciou a paleoclimatologia por duas décadas”, afirma Chiessi.

Até o fim deste século, os modelos climáticos numéricos sugerem uma contração do intervalo latitudinal de oscilação do cinturão tropical de precipitação, o que diminuiria ainda mais as chuvas na porção norte do Nordeste do Brasil, com consequências socioambientais potencialmente severas. Porém, caso a grande circulação das águas do Atlântico se enfraqueça substancialmente, transpondo um limiar crítico, como prevê outro estudo de Chiessi, o Atlântico Sul deverá aquecer mais do que o Atlântico Norte, forçando o cinturão para o sul. “Isso traria consequências bastante negativas em diversas partes do planeta, mas, no âmbito regional, evitaria uma redução ainda maior das chuvas na faixa norte do Nordeste”, comenta o pesquisador (leia mais em: agencia.fapesp.br/23015/).

O artigo Mid- to Late Holocene Contraction of the Intertropical Convergence Zone Over Northeastern South America pode ser acessado em https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2020PA003936.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

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