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Tecnologia Marte

Não, as fotos da NASA não são evidências de fungos crescendo em Marte

Apesar do que você pode ter lido, as alegações de vida em Marte são de má qualidade e não científicas.

07/05/2021 19h11
Por: Redação
Não, as fotos da NASA não são evidências de fungos crescendo em Marte

Por Jackson Ryan
Publicado no CNET

Marte está muito na moda agora. O rover Perseverance da NASA está lá em busca de vida, e o helicóptero marciano da agência, Ingenuity, está realizando feitos aéreos ousados. Mas na quarta-feira, Marte apareceu no noticiário pelos motivos errados. De acordo com sites como o Daily Mail, os cientistas estavam fazendo uma afirmação bastante doida: haviam fungos vivos e crescendo no planeta vermelho. O primeiro pensamento: “Ah merda, lá vamos nós de novo“. A teoria dos “cogumelos em Marte e fungos em Vênus” é uma ideia desgastada e desmentida que parece um padrão: aparece cerca de uma vez por ano. As manchetes certamente são interessantes: Imagine se encontrássemos fungos em Marte ou Vênus! Literalmente reescreveria nossas ideias sobre a vida no cosmos – mas os artigos raramente trazem as evidências científicas para as afirmações malucas.

Parte de mim quer deixar passar porque, em alguns casos, qualquer publicidade é realmente publicidade positiva, mas isso é ciência ruim e alguns sites têm artigos erroneamente intitulados “Cientistas encontraram evidências de fungos crescendo em Marte”, quando simplesmente não é o caso.

Então, vamos lá explicar o que realmente está acontecendo (de novo!)

O ‘Tiger King Espacial’

No centro, ou às vezes acompanhado, dessas afirmações bizarras está um homem chamado Rhawn Gabriel Joseph.

De acordo com sua página da Internet, Brain Mind, Joseph é um neurocientista decadente que fez grandes contribuições ao campo da neuroplasticidade na década de 1970. Joseph publicou, por mais de uma década, afirmações sobre a vida em outros planetas em seu site e em jornais pseudocientíficos que supervisiona.

Suas afirmações às vezes circulam entre cientistas sérios e transbordam para a imprensa, mas, na maioria das vezes, não chegaram a revistas científicas legítimas nem foram revisadas por outros especialistas em ciência espacial.

Até 2019, quando as reivindicações de Joseph realmente foram tratadas com prestígio. Em novembro daquele ano, Joseph teve um artigo que passou pela revisão por pares na revista Astrophysics & Space Science. Em junho passado, publiquei um artigo sobre Joseph e essas alegações, o que acabou levando a revista a retratar o artigo de Joseph, afirmando que “o artigo oferece avaliação crítica insuficiente do material apresentado e da literatura citada, e não fornece uma base sólida para as declarações especulativas feitas no artigo que, em sua opinião, invalida as conclusões tiradas”.

Mas na quarta-feira, as afirmações de Joseph chegaram a outra revista científica, conhecida como Advances in Microbiology.

O dia dos fungos 

Advances in Microbiology é um periódico relativamente obscuro publicado pela Scientific Research Publishing, que tem sede na China e já foi pega republicando artigos científicos, de acordo com a Nature. Foi acusada de ser uma editora predatória, cobrando honorários de cientistas para publicar em seus periódicos sem verificar a qualidade dos estudos submetidos.

O novo estudo, apelidado de “Fungi on Mars? “Evidence of Growth and Behavior From Sequential Images” e disponível no ResearchGate, refaz alguns dos antigos argumentos para a vida em Marte, usando metodologia imprecisa para tirar suas conclusões. Na maior parte, Joseph e seus coautores usam imagens obtidas por rovers da NASA e desenham linhas e setas vermelhas para apontar características que eles acreditam corresponder ao crescimento de fungos.

“Alegar que cogumelos estão brotando em Marte é uma afirmação extraordinária que requer melhores evidências do que uma análise da morfologia fotográfica feita por um excêntrico conhecido que afirmou, com base no mesmo tipo de análise, ter visto crânios em Marte”, disse Paul Myers, um biólogo do desenvolvimento da Universidade de Minnesota, Morris (EUA), que acompanhou o trabalho de Joseph no passado.

Um experimento, realizado pelos autores, foi analisar o tamanho e o movimento de “espécimes esféricos” no estudo. Rotineiramente faz referência a trabalhos anteriores de Joseph como evidência para suas conclusões. A equipe sugere que “seria surpreendente” se não houvesse vida em Marte – mas isso não é verdade. Temos montanhas de dados mostrando que as condições de Marte não são propícias à vida como a conhecemos. Os fungos podem contornar essas condições? Talvez, mas as evidências disso são escassas.

Depois de ser alertado sobre o novo estudo na quarta-feira, enviei e-mails aos editores-chefe associados da Advances in Microbiology, pedindo esclarecimentos sobre o processo de revisão por pares. Eles não responderam aos pedidos de comentários.

Também enviei um e-mail aos membros do conselho editorial listados no site do SCIR, incluindo Jian Li, um microbiologista da Universidade Monash na Austrália. Ele diz que não faz parte do conselho editorial da revista “há, pelo menos, cinco a seis anos” e não tem lidado com nenhum dos estudos da revista.

Ciência ruim

Um dos maiores problemas em publicar sobre as afirmações de Joseph é permitir que a ciência ruim chegue ao público.

A pandemia nos mostrou que a desinformação pode ser prejudicial, corroendo a confiança na ciência, pesquisadores e institutos. Vimos, repetidamente, como relatórios errôneos podem se tornar virais e, mais tarde, ser usados ​​para sugerir que os cientistas estão voltando atrás em afirmações anteriores. Para ser claro, ninguém tá voltando pra trás em nada. A maioria dos cientistas concorda que as condições na superfície de Marte não são boas para o desenvolvimento de fungos.

“Todas as evidências disponíveis sugerem que a superfície de Marte não é hospitaleira para a vida”, disse Brendan Burns, astrobiólogo da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Quando as publicações promovem a teoria não científica dos “cogumelos em Marte” sem crítica, pode ser prejudicial para cientistas como Burns e organizações como a NASA, que estão tentando encontrar sinais legítimos de vida em outros planetas.

Se encontrássemos vida em outro lugar do Sistema Solar, ela não apareceria pela primeira vez na revista Advances in Microbiology. Os leitores devem permanecer céticos em relação a quaisquer alegações de fungos – especialmente, aquelas promulgadas por um único grupo de cientistas.

E olha, estou totalmente feliz por estar errado aqui. Se descobrir que se trata de um fungo em Marte, serei o primeiro a dizer que “mordeu a língua”.

Tenho esperança de que o rover Perseverance da NASA, que está percorrendo ao longo de um antigo leito de rio marciano, possa encontrar os primeiros sinais de vida que existiu no planeta vermelho. O rover chinês que logo ir, Zhurong, também pode ajudar a entender se Marte abrigava formas de vida alienígena. Teremos que esperar para ver.

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