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Lucro bilionário da Copel contrasta com prejuízos e desespero de produtores rurais no Paraná
Enquanto a companhia celebra um lucro de R$ 2,66 bilhões em 2025, pecuaristas e agricultores enfrentam a morte de animais, a queima de equipamentos e perdas milionárias devido à queda na qualidade da energia elétrica no campo.
04/03/2026 12h36
Por: Redação Fonte: Sistema Faep
Reprodução

Nos últimos anos, a realidade dentro das porteiras do Paraná tem caminhado na contramão dos balanços financeiros da Companhia Paranaense de Energia (Copel). De um lado, pecuaristas e agricultores de todas as regiões do Estado acumulam prejuízos milionários com a perda da produção — reflexo de quedas recorrentes no fornecimento de energia e oscilações constantes na tensão da rede. Do outro, a concessionária registrou um lucro líquido de R$ 2,66 bilhões em 2025.

O abismo entre o desempenho financeiro da empresa e a qualidade do serviço oferecido na área rural é evidenciado por relatos de produtores e dezenas de ofícios encaminhados por sindicatos rurais e prefeituras. Os problemas vão muito além de uma simples "dor de cabeça": dentro das propriedades, a instabilidade elétrica tem causado a mortalidade de animais, especialmente peixes e frangos; a queda na produção de leite; e a queima de equipamentos essenciais, como motores, bombas de irrigação, climatizadores, painéis de controle e resfriadores.

“Essas situações de falta de energia e perdas dentro da porteira se tornaram recorrentes, com o prejuízo sempre ficando para o produtor rural. Isso é inadmissível. A Copel precisa achar uma solução o quanto antes”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “O produtor rural está sofrendo horrores. Não dá mais para admitir a qualidade atual do serviço da Copel. Vamos continuar cobrando a solução dos problemas e a melhora dos serviços”, complementa o dirigente.

Privatização e a promessa não cumprida

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Em 2023, a Copel foi privatizada em uma operação que rendeu R$ 3,1 bilhões aos cofres do governo do Estado com a venda de ações na Bolsa de Valores de São Paulo. O governo estadual deixou de ser o acionista principal, e a empresa passou a um modelo de gestão misto. Na ocasião, a promessa era de que a privatização aumentaria a competitividade no setor elétrico brasileiro para beneficiar, principalmente, o consumidor paranaense.

Hoje, a Copel atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em quase 400 municípios do Paraná e Santa Catarina. Mas, no meio rural, o cenário é de deterioração. Produtores relatam que as quedas de energia podem ocorrer várias vezes no mesmo dia e, em casos extremos, o restabelecimento do serviço leva quase uma semana, colocando em risco toda a produção.

"Não tenho mais sossego": os relatos de quem vive no campo

Em fevereiro de 2025, o avicultor Pedro Riffel, do distrito de Iguiporã, em Marechal Cândido Rondon, viveu um pesadelo. As constantes oscilações na rede elétrica sobrecarregaram o sistema do gerador de sua propriedade. O equipamento demorou a acionar, e ele perdeu 800 frangos que seriam entregues no dia seguinte. O prejuízo imediato foi de R$ 10 mil.

“Os frangos já estavam prontos. Mas, quando ficam sem ventilação, é questão de minutos para morrerem”, relembra Riffel. Um ano depois, o problema persiste. As “piscadas” na luz ocorrem de sete a dez vezes durante a noite, sobrecarregando o gerador e os equipamentos do aviário. Mesmo com uma estrutura nova — ele atua no ramo há cinco anos —, os gastos anuais com manutenção chegam a R$ 12 mil. “Não tenho mais confiança, nem sossego. Chega à noite e não consigo descansar, porque fico achando que pode faltar energia”, desabafa.

Na mesma cidade, o piscicultor Hilário Schoninger, que vive exclusivamente da produção de tilápia há 16 anos, acumula perdas traumáticas. Em 2016, uma queda de energia durante a madrugada dizimou 60% da produção, o equivalente a 100 mil peixes. Seis anos depois, um novo apagão noturno resultou na morte de 52 toneladas de peixes — 100% do plantel. O prejuízo foi de R$ 250 mil.

“Naquele ano eu tinha feito um investimento de mais de R$ 90 mil em equipamentos novos, para pagar com aquele lote de peixes. Não sobrou um peixe para contar história”, recorda.

Depois disso, Schoninger investiu R$ 100 mil em um gerador automático, que chega a consumir 12 litros de diesel por hora e já ficou ligado por dois dias seguidos. “Quando cai a energia, eu logo comunico a Copel, mas o atendimento é lento. Às vezes só volta 48 horas depois. E a Copel alega que o serviço é terceirizado, que a área é de difícil acesso. Mas não é argumento, a estrada é asfaltada”, desabafa.

Estrutura precária e falta de respostas

Em Nova Santa Rosa, também no Oeste, Tiago Zeretski administra a propriedade da família, que produz frangos desde 2007. Há quatro anos, os problemas com quedas e oscilações se intensificaram, e já houve ocasiões em que a propriedade ficou 72 horas sem energia. Segundo ele, a rede é antiga e a fiação é comprometida, com cabos rompendo devido à vegetação próxima.

Zeretski relata que, mesmo após reconhecimento parcial do problema pela Copel e algumas melhorias, as oscilações continuam. “Tem situação em que nós ficamos sem energia, mas a propriedade em frente tem. São só cinco metros de distância”, conta o produtor, que já perdeu as contas de quantos protocolos abriu junto à empresa. Em quatro anos, ele gastou cerca de R$ 60 mil por gerador, além de um consumo significativo de diesel para manter a produção.

Descaso e sentimento de abandono

No Norte do Estado, a realidade não é diferente. Em Ribeirão Pinhal, a produtora Rosivani Olímpio enfrentou dois apagões consecutivos de cinco dias cada — um durante o Carnaval e outro na semana seguinte. Com 70 cabeças de gado e uma propriedade de 100 alqueires, o abastecimento de água, feito por poço artesiano com bomba elétrica, foi completamente interrompido. Ela precisou soltar 40 animais na pastagem e acionar a prefeitura para receber água de caminhão-pipa.

“Eu não sei nem a quem recorrer. É muito descaso. O sentimento é de abandono”, desabafa Rosivani, que diz não conseguir falar com um atendente humano, apenas com robôs.

Em Rondon, a pecuarista Simone Carvalho de Paula, que mantém 400 cabeças de gado, também sofreu com a falta de energia na mesma época. Além da interrupção, as fortes oscilações na rede colocam em risco sua estrutura. “São variações fortes, que podem queimar os aparelhos. Muitas vezes precisamos sair correndo para desligar tudo, inclusive a chave padrão no poste”, afirma. Ela estima um prejuízo de R$ 6 mil apenas com a queima de equipamentos, entre itens da casa e da produção.

Para os produtores, o lucro bilionário da Copel soa como um contrassenso diante da realidade de perdas, estrutura sucateada e atendimento precário no campo. O grito que vem de dentro da porteira é por uma solução urgente — antes que novos lotes sejam perdidos e novos prejuízos se acumulem.