
Com um acervo de mais de 7 mil exemplares físicos, 2 mil livros falados e 25 mil livros digitais, a Seção Braille da Biblioteca Pública do Paraná (BPP) atende a população cega e com baixa visão desde 1969. Pioneiro na produção de audiolivros e digitalização sob demanda, o setor é especializado em ampliar o acesso à leitura, oferecer atendimento, orientações e promover eventos e encontros.
Entre as diversas iniciativas e o ambiente preparado para receber pessoas com deficiência visual, o local se tornou referência em acessibilidade para o público e instituições paranaenses.
É possível encontrar diversos gêneros entre os títulos disponíveis para empréstimos, inclusive infantis. Um dos destaques da Seção, posicionado logo na entrada, é o sucesso infanto-juvenil “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, dividido em sete volumes. Os funcionários explicam que os livros em sistema Braille – que permite a leitura tátil com caracteres em relevo – exigem mais espaço do que os impressos em tinta, por isso são divididos em vários volumes.
Isso explica porque, entre a lista de leitores que mais emprestaram livros em 2025, Cristiane de Fatima Costa ocupa o primeiro lugar com 648 volumes retirados ao longo do ano. Formada em Letras e apaixonada por literatura, ela frequenta a BPP há mais de 40 anos, e conta. “Leio muito rápido, e como os livros em Braille são maiores do que os em tinta eu empresto uma ou duas vezes por semana”, conta Cristiane.
Para Cristiane, o espaço garante que seu hábito de leitura continue sempre vivo. “O serviço aqui é muito bom para quem gosta de ler. A leitura tem um papel muito importante na minha vida, acho que ela amplia horizontes”, afirma.
Atualmente, a Seção conta com mais de 100 leitores cadastrados, mas como ressalta a coordenadora da Seção Braille, Cleomira Burdzinski, as atividades não são voltadas apenas para os apreciadores dos livros. O Cine Inclusivo, por exemplo, realiza exibições de filmes com audiodescrição e janela de Libras, e um dos projetos de maior sucesso é o “Encontro de eficientes”, que acontece mensalmente.
“Estabelecemos temas que vão ser tratados ao longo do ano e apresentamos para os frequentadores para eles participarem com sugestões também. Trazemos uma temática todos os meses voltada à pessoa com deficiência visual, assim chamamos bastante público”, conta a Cleomira.
SERVIÇOS -O setor também conta com serviços como a doação de ponteiras para bengalas e o empréstimo de bengalas por três meses, com possibilidade de renovação. Além disso, também oferece informações sobre acessibilidade e faz encaminhamentos para outras instituições. “Já temos uma ‘clientela’ assídua, que vem pelos nossos encontros ou pela leitura. Também temos muitos que chegam aqui como o primeiro recurso, porque nos tem como uma referência. Eles chegam aqui e dizem ‘fiquei cego e não sei o que eu faço’, então a gente tem essa importante missão de fornecer informações”, explica Cleomira.
ACOLHIMENTO E ESCUTA- A coordenadora conta que, para atender pessoas com diferentes tipos de deficiência, é necessário oferecer uma recepção acolhedora e escutar sobre a necessidade de cada um. “Quando alguém está perdendo ou já perdeu a visão, pensa que não pode ter mais nenhum recurso de lazer, mas nós mostramos que ele pode ter vários tipos de leitura e ter a tecnologia a seu favor. Hoje a tecnologia auxilia muito a pessoa com deficiência. Mostramos recursos que ela pode usar no celular, com a câmera, por exemplo. Eles saem daqui animados e com esperança e expectativas, sabendo que existem possibilidades”.
E para quem não está localizado nas proximidades de Curitiba, a BPP conta com os serviços da Redeseg, que dá apoio a outras bibliotecas, com o envio de livros em Braille por demanda. Já a Redeseg Lar, atua com serviços a domicílio e visitas a lares de idosos na capital paranaense e região, com contação de histórias, dinâmicas e livros em Braille e com fonte ampliada. Através do projeto, foram atendidos sete municípios em 2025.
Já para os videntes, que não possuem deficiência visual, a Seção Braille oferece serviços como o projeto de extensão Aprendendo Ver Ouvindo, que realiza palestras em universidades e empresas sobre temas como audiodescrição, Braille e como auxiliar pessoas cegas e com baixa visão.
CURSO GRATUITO DE BRAILLE- Um dos destaques entre as ações é o curso gratuito de Braille e soroban – sistema de aprendizagem de cálculos matemáticos. As aulas são voltadas a alunos videntes, que aprendem as 64 combinações que formam o código Braille. O instrutor Anastácio Panfilo Braga conta que desde que o curso foi criado, em 2020, já formou vários professores do ensino regular, que ao completar o curso, estão capacitados para auxiliar alunos com deficiência visual em sala de aula.
“Hoje em dia, pouca gente sabe sobre o Braille, tanto é que tem muitos que nunca nem ouviram falar. Portanto, aprendendo como se escreve e como se lê, pode-se ajudar a difundir essa informação”, comenta Anastácio, pessoa cega e que trabalha no setor há mais de 30 anos .
Quem faz o curso nunca esquece. É o que relata a ilustradora e ex-aluna Giuliane Simizu Calizotti, que voltou à Seção para fazer uma visita. “Quando eu vi que tinha o curso, na hora já quis fazer. O professor é muito atencioso e ensinou tudo com muita paciência, foi muito gostoso aprender. É uma experiência única. Conversar com o Anastácio sobre a experiência dele foi uma das coisas mais legais”.
Giuliane retornou à Biblioteca para entregar um exemplar do livro “Caderno de Artista”, da autora Miriam Delefrate Guedes, que contém as suas ilustrações. Lançada neste ano, a obra é impressa em Braille e também conta com ilustração em alto relevo. “Para mim foi a realização de um sonho. Eu queria aprender para um dia poder produzir e também queria, de alguma forma, agradecer tudo que eles ensinaram. É um trabalho louvável e acho que só quem teve a experiência de ter a aula pode entender como é. Foi muito emocionante quando eu trouxe o livro para o Anastácio. Foi uma experiência muito legal mesmo”, relata a artista.
Com aulas individuais e turmas de até três pessoas, a carga horária é de 24 horas, que podem ser distribuídas de acordo com a disponibilidade do aluno. No final, é emitido um certificado. “Estamos à disposição para passar um aprendizado a mais, e emitimos um certificado, o que melhora o currículo. Os ex-alunos sempre voltam para agradecer e cumprimentar a gente, alguns até se tornam voluntários”, lembra o instrutor.
Esse é o caso de Raquel Rubem Rocha, que já atuava com pessoas com deficiência visual quando ouviu falar que a Biblioteca Pública ofertava o curso. Hoje, é voluntária da Seção Braille, e lembra com carinho das aulas. “São tardes extremamente agradáveis. Começamos a transcrever músicas para o Braille, porque o instrutor é músico também. Quando chegou no final do curso, eu falei para ele que não queria que ele me aprovasse, porque não queria que acabasse”.
LEITURA FALAA- Localizada em uma das maiores bibliotecas do país, a Seção Braille da BPP entende que para atender a diversidade de leitores, é necessário oferecer suportes diversos para a leitura. Além disso, garantir um acervo variado é tão importante quanto, para atender não apenas as necessidades, mas os gostos de cada usuário. Para quem não está habituado com o Braille, por exemplo, o setor oferece o serviço de livro falado sob demanda através do uso de vozes sintéticas ou da leitura manual, realizada por agentes da equipe.
O usuário pode escolher títulos que não estão no acervo. Já outros leitores preferem os livros digitais, que podem ser lidos por aplicativos no celular ou computador.
“As pessoas com baixa visão, por exemplo, muitas vezes não sabem o Braille e têm dificuldade de ler no formato digital, por conta da incidência de luz, por isso a necessidade de promover a acessibilidade da leitura”, explica Cleomira. A coordenadora conta que o setor faz um trabalho de escuta individual, para entender o que cada leitor precisa.
Ela lembra o caso de uma leitora idosa, que usa o serviço de leitura falada por telefone. “Fazemos uma leitura diferenciada para uma senhora que não consegue mais vir até aqui e não acessa a tecnologia. Aí a leitura é feita por telefone, e é muito legal ouvir, porque ela conversa sobre o livro, sobre como vai terminar. É outra relação com a leitura”.
Ter essa sensibilidade garante que ninguém fique de fora. O frequentador do setor, Natalio Amaral Rocha também é integrante da lista dos que mais emprestaram livros em 2025. Ele diz que gosta de ler de tudo um pouco. E explica que, além do Braille, a disponibilidade do áudio amplia sua experiência com a leitura. “Eu gosto de ouvir os livros, às vezes tem alguma palavra que é meio difícil e o áudio ajuda bastante”.
Giuliane, que agora é parte da produção de um livro adaptado que integra o acervo, reconhece a importância de um espaço como a Seção Braille para a garantia do direito de acesso à leitura. “É imprescindível a existência desse setor, porque aqui eles dão toda a assistência e apoio para os leitores. Não é todo lugar que tem isso, e a Biblioteca é um orgulho para o Paraná. Como ex-aluna, eu me sinto orgulhosa de ter feito aula aqui porque eu sei da importância disso tudo”.