
O atentado a um dos mais importante jornalistas holandeses em pleno centro de Amsterdam na noite desta terça-feira (6/7) fez lembrar que nem em países que asseguram a liberdade de imprensa os profissionais estão protegidos.
Peter R. de Vries, de 64 anos, conhecido por suas reportagens investigativas sobre crime organizado, está lutando pela vida em um hospital depois de levar cinco tiros quando deixava o prédio da emissora de TV RTL Boulevard.
O governo da União Europeia se manifestou. O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, falou na manhã desta quarta-feira na sessão do Parlamento sobre o caso, afirmando que o crime é “um atentado aos valores fundamentais e à liberdade de imprensa”.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, lembrou que “os jornalistas que investigam potenciais abusos de poder não são uma ameaça, mas sim um trunfo das nossas democracias”.
Três suspeitos, incluindo o suposto atirador, foram presos. Mais tarde, um deles foi liberado e dois continuam sob custódia.
Peter R. de Vries é um profissional premiado, que tem em seu currículo a cobertura de grandes casos criminais, como o sequestro do dono da Heineken. Tornou-se ainda mais popular comandando desde 1995 um programa de TV sobre crimes.
Os tiros foram à queima-roupa, um deles na cabeça, em uma rua próxima à Leidseplein, uma das principais praças do centro da cidade.
De Vries trabalhou para veículos como De Telegraaf, revista Panorama e Algemeen Dagblad. Em 2008, ganhou o prêmio Emmy Internacional por sua investigação sobre o desaparecimento da adolescente Natalee Holloway em 2006, em Aruba.
Ele trabalhou em dupla com o jornalista Cees Koring durante cinco anos. “O jornalismo investigativo e as reportagens criminais ainda estavam em sua infância na década de 1980. Fomos pioneiros. As aparições de Peter na TV deram um rosto à nossa atividade, levando-a a um nível superior”, disse.
Ontem ele falou sobre a tenacidade do colega em reportagens investigativas:
“Peter nunca desiste, desistir não é uma opção.”
Em 2019, De Vries disse no Twitter que estaria em uma lista de morte. O profissional vinha atuando como conselheiro de uma testemunha que depôs no caso contra Ridouan Taghi, líder da máfia holandesa suspeito de assassinato e tráfico de drogas.
A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) divulgou um comunicado condenando o ataque. A entidade cita relatos da mídia local informando que De Vries já tinha sido ameaçado no passado e recebeu proteção policial.
O secretário-geral da Associação de Jornalistas Holandeses, Thomas Bruning, disse: “Isso atinge o jornalismo bem no coração. […] De Vries é um combatente do crime feroz, persistente e corajoso. Só podemos esperar que ele sobreviva.”
O presidente da IFJ, Younes MJahed, disse: “Estamos chocados com este ataque contra um jornalista que relatou extensivamente sobre assuntos de interesse público e assumiu enormes riscos para dizer a verdade. Este é um ataque à liberdade de mídia e instamos as autoridades a investigarem rapidamente isso caso e processe os que estão por trás dessa tentativa de homicídio.”
Segundo análise da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), a Europa é o continente mais favorável à liberdade de imprensa, mas a violência contra jornalistas aumenta. Em países como Hungria, Polônia e Grécia, há registro de episódios envolvendo cerceamento de informações e prisões de jornalistas.
A Hungria, governada pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, vive estado de emergência desde março de 2020. A legislação em vigor pune a divulgação de notícias falsas, o que é usado sistematicamente pelo poder central contra publicações desfavoráveis ao governo.
O país “assume sem constrangimento algum sua escolha política de reprimir a liberdade de imprensa e de expressão”, afirma a RSF. A postura de Orbán, segundo a organização, influencia ainda outros países do bloco europeu, como Polônia e Eslovênia, a reprimir o jornalismo e a liberdade de expressão. No Reino Unido, a prisão de Julian Assange, fundador do Wikileaks, é considerado um caso emblemático.
Recentemente, a organização publicou um estudo em que aponta 22 jornais do mundo “assassinados” por governos nos últimos cinco anos. Os métodos vão desde sufocamento financeiro, com corte de verbas, ao confisco de bens e à proibição de compra de papel para imprimir as publicações.
A RSF aponta que além do jornalismo investigativo, a cobertura de manifestações tem sido um trabalho perigoso para jornalistas. Casos de agressões na França, Itália e Alemanha foram registrados, bem como episódios de violência policial contra profissionais da imprensa na Bulgária, Polônia e Sérvia.